 Têm uma magia própria as
fotografias cor de sépia. Um mistério idêntico ao dos velhos
livros, onde uma solenidade amarela, de cheiro fechado, se
mistura com o passar do tempo. É possível recuperar o esplendor
do mogno das velhas mesas, com os seus tabuleiros incrustados?
Conseguirão ainda os grandes relógios de antigamente compassar
as novas partidas? Este é um estranho mundo de moradas perdidas
e velhos cafés assassinados, retratos de uma outra cidade,
folhas de uma cultura soterrada pela selva urbana do nosso
tempo, ao qual apenas chega, solitária e íntegra, a honrada
memória do «Grupo». «Pai, que faz este senhor de pistola na sala
do torneio, a ver os jogadores?». «-Aquele era o Che Guevara,
filho! Nunca se separava da pistola. Adorava xadrez e já morreu,
queres ver?...». E lá vão, os dois, pela mão um do outro, em voz
baixa porque, ali ao lado, joga-se xadrez. Ou, de outra maneira,
porque ali ao lado, na nobreza do velho salão, se perpetua a
paixão em contra luz de gerações debruçadas sobre belos
tabuleiros de madeira. Dez anos vezes seis vezes, 60 anos, pois,
que é a idade em que os sonhos amadurecem e podem, então, voltar
ao princípio.
Como na tarde de Julho de 2000, em que, com um sorriso
nostálgico, o engenheiro Lima Torres emerge da letra impressa de uma
anódina lista de adversários de Alekhine, numa simultânea de 1940,
para se sentar ali, do outro lado da mesa, e restituir ao presente o
mítico campeão sob a forma de um homem, cujos passos pesados parece
agora poderem escutar-se, enquanto sobem as escadas até ao primeiro
andar do Grupo. Que importa que primeiro andar de que prédio ou de
que rua, era esse? ... Alekhine como que se materializa aqui, agora,
no primeiro andar do nº 183 da Rua Passos Manuel, ao lado desses
homens de cabelos brancos e anos avançados, sentados em volta dos
gastos tabuleiros do Grupo, onde repousa, aberto, o livro das suas
200 melhores partidas, oferecido, pelo autor, vai para 60 anos ao «Groupement
d’ Échècs du Porto», com os melhores votos e...
... a sensação de estar sentado à mesa com a história, a mais viva
de quantas percorrem quem deve alinhar algumas palavras sobre a
memória do «Grupo», esse carinho cifrado que, para os seus, não só
designa o mais antigo clube de xadrez no activo em toda a Península
Ibérica, como representa o íntimo recanto da paixão que os liga ao
velho jogo, desde o longínquo Maio de 1940, quando a Europa ardia
sob o fogo dos exércitos e, nos cafés do Porto, se jogava xadrez.
Um deles servirá de primeiro albergue para um
punhado de homens que a única coisa que queriam era isso mesmo,
jogar xadrez. O desaparecido «Monumental», na Avenida dos Aliados
conhece dessa maneira os primeiros passos do «Grupo», um trajecto
onde dois nomes haviam de destacar-se: Raul Fernando da Silva
(também ele já apenas uma memória) e Augusto Faria, hoje com 90 anos, o sócio nº 1.
Não há fotos desse tempo de antes do tempo? Talvez haja, quem
sabe... Até porque, provavelmente, a ideia não seria inédita na
cidade. O «Grupo» alberga nos seus arquivos os números um e dois da
revista «Estratégia». Amarelecido pelos anos, o papel fininho das
suas páginas informa de que elas tratam de xadrez e damas e que eram
editadas na Rua do Almada, em 1933.
Havia, então, um tráfego intenso de tabuleiros sobre as mesas, nessa
geografia perdida dos cafés da cidade. Miúdos como o mestre
Álvaro Machado, futuro sócio e campeão do Grupo, aprenderam o
movimento das peças por entre o ruído da clientela e a fadiga dos
empregados, assim, de pé, observando em silêncio dois senhores
circunspectos, que tomam o seu café e um digestivo, enquanto
manobram lentamente, pela tarde, os bispos e os cavalos, com o vagar
dos tempos perdidos.
«Eu ficava ali a vê-los jogar, a princípio sem perceber como aquilo
funcionava, depois compreendendo uma por uma como se moviam as
peças. Nessa altura o que não sabia era como acabava o jogo. Não
sabia qual era o objectivo», contou o mestre Machado. Iria
aprendê-lo mais tarde, às mãos de um amigo, que enquanto pode não
deixou de aproveitar as águas turvas da ocasião para trocar uns
quantos “pates” ineptos por “mates” à medida. Mas isto passar-se-á,
tudo, bem mais tarde.
Agora é Abril de 1941 e o «Grupo» mudou-se para o café «Palladium».
Adelino Ribeiro torna-se o seu primeiro presidente eleito.
Acompanham-no, um húngaro radicado no Porto, Gencsi Dezso, à época
um dos mais fortes jogadores da cidade, além de Augusto Faria,
Aníbal Leite e Luiz Almeida. De todos eles, apenas Faria chegaria
até nós.
Não muito longe dali, um grupo de radialistas cuja memória nos
apresenta como sendo constituído por indivíduos intelectualmente
vanguardistas e, como tal, adiantados ao seu tempo, acolhe no
«Portuense Rádio Clube» um espaço radiofónico dedicado ao xadrez.
Desconhece-se como chegaram Adelino Ribeiro, Augusto Faria ou Dezso
ao contacto com os homens de éter, que passaram a abrir os seus
microfones regularmente aos porta-vozes do misterioso jogo. Também
se ignora a duração do programa. Mas, homens como Aristides Cunha,
ao procurarem no seu antiquíssimo baú as recordações desse tempo,
lembram-se de ficar à noite em casa para escutar emissões que diziam
coisas como esta:
«Minhas senhoras e meus senhores: Pela primeira vez a minha voz é
lançada, juntamente com as radiações de alta frequência que a
transportam, através do misterioso e hipotético éter. As minhas
palavras iniciais deveriam constituir, logicamente, uma apresentação
e uma justificação da minha presença. Todavia, uma apresentação
torna-se desnecessária, uma vez que me encontro aqui, não como uma
personalidade vincadamente individual, mas como um elemento
integrante de uma colectividade florescente e progressiva que é o
Grupo de Xadrez do Porto».
A diluição do individual no colectivo faria com que, sem assinatura,
nem registo audio, apenas o texto lido aos microfones do «Portuense»
chegasse até hoje. E ninguém da época se recorda de quem era o
autor. Uma voz sem rosto, a propagar um projecto desconhecido...
«Receio, porém, que todo o meu desejo de bem cumprir e todo o
entusiasmo que à minha tarefa dedico não consigam neutralizar ou,
pelo menos, esmaecer a falta de originalidade da minha pena e o
descolorido das minhas frases»... Era um temor conhecido por todos
os que em todos os tempos tentaram fosse o que fosse e, também, um
modo de dizer. Porque estes eram homens que no tabuleiro jogavam
gambitos, sacrificavam peças em nome da beleza e serviam o seu
xadrez romântico com um verbo barroco: «O intelectual português
–constatava a voz de Abril de 1941— ainda não atentou bem, por via
de regra, nas magníficas qualidades do Jogo Real». Em boa verdade,
há que conceder que hoje, Julho de 2000, assim continuamos, como no
texto iniciático que a exposição dos 60 anos reproduz na íntegra.
Mas a Primavera de 1941 é tempo de outros sonhos, na Europa do
pesadelo. Para os pioneiros do Grupo germina a ideia, a
possibilidade, de trazer ao Porto o campeão do mundo, Alekhine. O
velho cavaleiro vivia tempos fulgurantes ao tabuleiro.
Excessivamente fulgurantes, talvez. Enquanto centenas de pares seus
agonizavam nos campos de concentração, Alekhine aceitava dar
simultâneas aos oficiais alemães. E ia mais longe, escrevendo
artigos anti-semitas e laudatórios da Alemanha hitleriana.
Sabe-se que tal conduta o degredaria em Portugal, após a vitória
aliada, onde deu simultâneas para sobreviver até que morreu
estupidamente engasgado com uma bola de carne mal mastigada, durante
um jantar solitário no seu quarto de hotel no Estoril, tendo
defronte uma posição de xadrez, montada sobre um tabuleiro de
análise. Desconhece-se, porém, suficientemente que impulso moveu o
último czar do xadrez russo, rumo aos braços da cegueira hitleriana.
Opinião política, delírio mitómano? ... Costumava contar este senhor
pesado e alto que agora, 1 de Setembro de 1941, cruza o salão do
Palladium, ter um dia tido que disputar a sua liberdade numa cela da
Tcheka soviética contra Trotsky em pessoa. Uma história que, até
hoje, a História se encarregou de nunca confirmar.
Seja como for, a 24 de Agosto de 41 a direcção do Grupo comunicava a
todos os sócios numa caligrafia escrupulosa que «foram plenamente
coroadas de êxito as negociações entabuladas entre o G.X.P. e a
F.P.X. [Federação Portuguesa de Xadrez] para a deslocação ao Norte
do Sr. Dr. Alexandre Alekhine, campião (com “i” e não com “e”)
mundial de xadrez». O «maior astro do firmamento escaquístico»
chegaria no dia seguinte a Espinho, onde ficaria por uma semana,
dando três sessões: 2 simultâneas - a primeira das quais, às cegas,
estava marcada para a noite seguinte, uma segunda feira, 25 de
Agosto, pelas 21 horas e 30 – e uma lição temática.
Entardece. E não custa imaginar como pulsa o coração aos oitos
jogadores seleccionados pelo Grupo, ao encaminharem-se, de acordo
com a convocatória da direcção, para a «Garagem Atlântida», à Praça
da Batalha, onde deveriam estar impreterivelmente pelas 20 e 15. Um
deles regressaria nessa noite de Espinho com uma vitória, Domingos
Tavares. Enquanto o húngaro Dezso anulava com o campeão de olhos
vendados. Assistia-se ao milagre por cinco escudos de bilhete,
enquanto os participantes «estavam isentos de qualquer taxa».
Sabe-se que Alekhine voltou a jogar, confirmando, já em condições
normais, sobre 43 vítimas (só o húngaro Dezso de novo sobreviveu) a
sua «técnica brilhantíssima e incomparável virtuosidade», até
chegar, no fim dessa semana mágica ao reduto portuense dos jovens
lobos, e ser recebido na bela sala «Renascença» do primeiro andar do
café Palladium. Aí estão, expostas, as reproduções dos documentos
citados e das fotos, tanto da simultânea, quanto da sua notável
presença entre os xadrezistas do Grupo que, desse modo, abriam com
chave de ouro o primeiro de 60 anos de história ora calma, ora
acidentada. Se necessário fosse, a vista de Alekhine teria um efeito
catalisador sobre toda uma brilhante geração de xadrezistas. O ritmo
competitivo era assombroso. Três anos depois o Grupo de Xadrez do
Porto vencia o campeonato nacional de xadrez postal. Outros três e
tornava-se campeão nacional por equipas. E, nesse mesmo ano, Leonel
Pias, o rapazinho de óculos sentado ao canto da fotografia com
Alekhine, ganhava o título de campeão nacional. Mestre Pias ainda
vive. E é possível assistir às suas quotidianas e iracundas lições
matinais de matemática num café de Espinho, onde alguns jovens menos
dotados para o cálculo da ciência exacta enfrentam submissos o proverbial
desfastio que faria boa parte da história pessoal do professor nas salas
de jogo do Grupo. Aqui, ele é recordado pelo seu carácter difícil, pelo
título de campeão, pela qualidade do seu jogo e pelo livro que deixou
escrito, primeiro em fascículos e, posteriormente, compilado num único
volume: «Lições de Xadrez». Parêntesis, chavetas e fracções constituem a
representação gráfica das variantes concebidas, meio ao estilo da época,
meio de acordo com o espírito matemático do seu autor. Quantas terceiras
categorias espreitaram apavoradas aquela ciclópica colecção de
conhecimentos, sentindo-se, porventura, incapazes de jamais assimilarem,
dela, um milésimo que fosse? Quem visitar a exposição e observar a obra de
Leonel Pias perceberá o sentido de tal terror.
A abrir as suas «Lições», mestre Pias não se demorará no diagnóstico: «Em
Portugal joga-se muito xadrez, mas estuda-se pouco». Para o autor, essa
seria a razão para que nenhum nome português ornasse o galarim
xadrezístico mundial. Apesar de discutível, o argumento parecia fazer
escola entre os responsáveis da época. À medida que chegavam a mestres, os
jogadores do Grupo começavam a transmitir os conhecimentos aos demais
jogadores, em cursos sistemáticos, dirigidos pelo «Gabinete Técnico do
G.X.P.» que funcionou, pelo menos nos primeiros tempos, sob a direcção do
próprio Leonel Pias.
Contudo, no plano da competição, os segredos não se partilhavam. Amargou
muito, o futuro mestre Álvaro Machado, desde o dia de 1947 em que entrou
na sala do tesouro do «Palladium» e ficou paralisado. «Para mim, aquilo
era como entrar no Estádio Nacional». Pelas mesas de mogno e os jogos de
madeira? Sim! Pelas colunas do salão? Sim ! Pela circunspecção grave dos
circunstantes a jogar? Também, sem dúvida! Mas, acima de tudo, porque tudo
aquilo junto parecia uma oculta conspiração propositadamente reservada aos
neófitos para lhes cortar a respiração.
Eis, portanto, o jovem Machado, de pé, sem ousar dirigir a ninguém a
palavra, olhando, estudando, procurando compreender o secreto destino das
peças na sua quadrícula concentracionária, manejadas por homens que, por
serem-no, homens e não deuses, não tardaram em começar a vergar os seus
reis incrédulos à vertiginosa ascensão do recém chegado. «Num ano passei
das terceiras categorias para as primeiras». E, quando se tornou mestre,
não muitos anos mais tarde, o Grupo retribuiu-lhe a honra, organizando uma
Taça com o seu nome: «Taça Álvaro Machado». Modesto e grande como só
alguns velhos campeões, na entrevista para este trabalho mestre Machado
não mencionaria o facto, que pode testemunhar quem, na exposição, olhar
com atenção os boletins internos da década de 50.
Aquela era uma taça de honra. Mas, no Grupo desse tempo, quase todos eram
bons pretextos para competir. Faziam-se os torneios de categorias, as
provas oficiais, encontros internos por equipas, com jogadores
agrupando-se propositadamente para defrontarem os seus colegas de clube e,
quando todas as modalidades da imaginação pareciam esgotadas, alguém se
lembrou de organizar um torneio de solteiros contra casados.
A década dobra, aqui. Anos 50. O pequeno João Mário Ribeiro, que se vê
numa foto belíssima, a estudar uma posição, com uma estranha concentração
adulta a coroar um corpo infantil, já é um mestre e está em Lisboa. Falta
pouco para se tornar o segundo campeão nacional oriundo das fileiras dos
pioneiros do Grupo. Noutras fotos ele surge a liderar a equipa, com os
pais por trás e a sua mãe é, por curiosidade, a única senhora presente nas
dezenas de fotos que refazem estes primeiros anos do Grupo de Xadrez do
Porto.
Anos sobre os quais Ribeiro imprimiu uma inextinguível impressão digital.
Pelo seu xadrez, evidentemente, mas também pela presença que detinha junto
dos outros jogadores. As fotos de equipa mostram, sentado ao primeiro
tabuleiro do Grupo, no fim dos anos 40, um jovem João Mário, de gabardina
vestida, poucos minutos antes de começar a jogar, com o ar algo vago que a
concentração dá aos xadrezistas quando começa a chegar... uma figura
situada algures entre James Dean e os existencialistas franceses que os
retratos de juventude de Camus emblematizam. Pela fotografia percebe-se
como ele era formidavelmente bem parecido e tinha o ar culto de quem nasce
em berço de ouro. Pela história, sabe-se que jogava melhor do que os seus
pares e, de volta à imagem, observa-se como tinha o semblante sonhador dos
predestinados. A foto tem, aliás, uma história curiosa. O jogador que se
encontra no segundo tabuleiro, ocupa essa posição porque a pediu a Álvaro
Machado, na altura o campeão do Grupo, para poder jogar ali, ao lado do
João Mário. Assim a memória os fixou.
Esse era o tempo inocente em que o xadrez era jovem e os jogadores ousavam
dedicar-lhes poemas, como só os homens novos e apaixonados fazem às
mulheres que amam e aos objectos por que se apaixonam: «Ao vê-los, frente
a frente, / belos, curiosos, manobrando / as peças de xadrez / confiei
neles, nos outros homens / existentes no mundo / Sabia que despertavam /
que as peças simples de madeira / torná-los-iam mais humanos / mais leais,
mais soberanos / do universo. / Foi assim que os vi...», testemunhou o
sócio Manuel Pires num velho boletim dos anos 50, trazendo a notícia da
atmosfera da época que, só por tão arrebatada, logrou trazer incólume, até
aos dias de hoje, o Grupo de Xadrez do Porto.
É, aliás, no ano de 1955 que, em Março, a direcção começa a edição de um
boletim interno que surgirá nas mãos dos sócios durante nove anos
consecutivos. Os directores estão, nessa altura, preocupados. Os ecos dos
passos de Alekhine parecem começar a deixar de se ouvir nas escadarias do
café Palladium. «Notamos com apreensão o divórcio existente entre a grande
maioria dos associados e a vida activa da nossa colectividade. (...) A
todos é, por isso, pedido um mínimo de esforço, que torne possível
transformar o Grupo de Xadrez do Porto numa colectividade à altura das
suas responsabilidades». De facto, nada existe, hoje, de novo debaixo do
sol...
A estrutura financeira revela, então como agora, uma árdua economia de
subsistência. Na rubrica “Receitas”, inscrevia-se a quantia de 7.400
escudos, enquanto a “Despesa” acusava 7.180$00. Havia um saldo positivo de
200 escudos, mas não apareciam registos de qualquer contribuição exterior.
As receitas do orçamento para 1955 faziam-se de 7.050 escudos de
quotizações, 300 referentes à compra de material da biblioteca e 50
entrados através da compra de «jogos velhos» por sócios.
A prosa fatídica dos números não alterava, contudo, o afã de jogar. Ao
lado do orçamento, o Boletim anuncia só para esse mês de Maio de 55, as
cinco sessões do campeonato das categorias A, a que se juntam um torneio
relâmpago em duas sessões, a disputa da Taça de Aniversário com as equipas
do Tirsense e da Assembleia de Campanhã, além de uma sessão de simultâneas
do mestre Manuel José da Costa. E, a terminar, um jantar de
confraternização com distribuição de prémios.
Em Agosto seguinte, era desferido no boletim um sinal de luzes a qualquer
incauto destinatário que não surge identificado. Apenas a alusão ao facto
de algum clube ter divulgado para a imprensa resultados desportivos mais
favoráveis do que os que lograra obter. Uma pequena chispa. A direcção
exortava: «Haja ponderação, senhores!». E pelo resto da prosa ficamos a
saber que «de há tempos para cá os jornais diários têm, de certo modo,
acarinhado o nosso jogo, publicando os noticiários que os grupos lhes
enviam».
Acidente, ou influência de alguém? Não se explica. A verdade é que, por
essa altura, os dirigentes do xadrez tinham já uma noção muito precisa da
importância de mediatizar o jogo. A ponto de, ainda antes de se concluir o
ano de 1955, em Novembro, surgir uma bizarra lista de participantes na
Taça «D. Juan Casas Bosch», um «prestigioso associado», competição que era
disputada por equipas com nomes insólitos: «Olímpicos do Salgueiros;
Unidos do F. C. do Porto; Amigos do Sport Lisboa e Benfica; Simpatizantes
do Académico F. Clube e Adeptos do C. A. de Rio Tinto». Quem olhar para o
nome dos três elementos de cada equipa, publicados nesse Novembro de 1955,
há-de esfregar os olhos e voltar atrás, a ver se é ele, ou a realidade
quem se engana. Todos os jogadores pertencem ao Grupo de Xadrez do Porto.
Alguns são das suas principais figuras até ao momento. Que se passava?
Propaganda. Nada mais simples do que a imaginação a dar um jeito à difusão
do xadrez. Explica o mestre Álvaro Machado: «Pensámos que se fizéssemos um
torneio com os nomes dos clubes de futebol, os jornais pegariam melhor. E
assim foi. Éramos todos jogadores do Grupo, mas no jornal as equipas só
apareciam com o nome de clubes de futebol. E a verdade é que apareciam!»
Nas actividades regulares, além da competição, pontificavam os cursos de
formação. O melhoramento técnico parece, visto daqui, uma obsessão de
direcções sucessivas. Havia um bibliotecário, em meados da década de 50 e,
entre outras acções, cumpria-lhe organizar sorteios para angariar fundos
para juntar mais livros a alguns tesouros então já ali existentes. Entre
eles (encontra-se exposto) o «Traité Élémentaire du Jeu des Échècs Éxposé
d’ Après une Mèthode Nouvelle pour en Faciliter l’ Étude, Précedé de
Mélanges Historiques et Littéraires», par le Conte de Basterot. Datado:
1852! Um livro com mais de 150 anos, que os velhos pioneiros do Grupo
olham com suavidade e nostalgia, acenando afirmativamente com a cabeça: —
claro que o conhecem. Foi por ele que estudaram.
Ao baixo, na página das referências técnicas do «Traité» do conde de
Basterot, uma indicação extraordinária: «Se vend au Café de La Régence»,
Paris. Isto é, o centenário epicentro de todo um dos mais importantes
períodos de toda a história do xadrez, quando as portas do «La Régence»
davam passagem a todos os cavaleiros românticos do tabuleiros do século
XIX, entre os quais Paul Morphy, que aí jogou os seus fulgurantes matches
europeus, para se afundar na loucura, depois de cruzar o oceano, de
regresso à sua América natal.
E o conde, que insondável cartografia o guiou até ao velho armário da Rua
Passos Manuel? – Ponto de interrogação. Mais um. O mesmo que poderia
estender-se às mais recentes páginas de uma revista da Federação Cubana da
modalidade, datada de 1967, o ano em que os heróis começaram
definitivamente a tombar, dedicada a Guevara acabado de morrer nas
montanhas da Bolívia. Lá está Guevara numa foto-monografia da sua paixão
compulsiva pelo tabuleiro. De pistola à cinta, observa os grandes mestres
que disputam o reputado Memorial Capablanca, o mesmo torneio onde o
solitário Grande Mestre português, António Antunes, conseguiu a última
norma para o seu título. Noutra página o Che ri-se. Acaba de ganhar uma
peça a um incipiente mestre cubano numa simultânea. Tem um charuto entre
os dentes e ri-se. Aqui estende a mão a Mikhail Tal, o mago das
combinações que declarou certa vez que se algum dia proibissem o xadrez,
se tornaria contrabandista. Ali perde com Korchnoi, jovem ainda, soviético
ainda, antes de desaparecer e mudar de pele, para se tornar por entre uma
montanha de doces de nata e as pirâmides de chocolate suíço, num dos mais
intratáveis e longevos campeões que os tabuleiros albergam nos baús da sua
história. Quem trouxe Guevara para o Grupo? Quando?...
Labores da paciência... infinita e pequena acumulação de carinhos e
generosidade. Como esta outra, da lavra de Fernando Cleto, um dos campeões
gerados pela travessia do tempo, entre o Palladium e a Passos Manuel, que
certo dia pegou numa caneta e com mão firme e cuidada, desenhou caracteres
de imprensa até preencher todas as principais variantes das aberturas que
por começarem com o peão de rei se chamam abertas ou semi-abertas. Tem por
título «1.e4», o fólio do jogador, que o ofereceu ao seu clube, que guarda
ambos com indisfarçável orgulho, encadernado, o livro, debruado a letras
douradas, por trás das quais os mais jovens podem descobrir como continuar
ao segundo lance, com tanta incerteza quanta a que o xadrez autoriza e
impõe a quem o joga.
Mais fresca ainda, no espólio do Grupo, a assinatura de outro campeão
mundial, Kasparov, recolhida em Lisboa pelo actual vice-presidente, Mário
Marques, que depositou no velho armário o trabalho da sua paciência,
esperando numa bicha de autógrafos em Lisboa, com «El Ajedrez Combativo de
Kasparov» na mão e os olhos no relógio, a verem passar as horas e com elas
o tempo de chegar ao Porto, para subir a rua e guardar o troféu que,
dentro de muitos anos, talvez 60, quem sabe, algum pesquisador de folhas
perdidas irá recuperar ao fundo do cesto sem fundo da memória do Grupo, se
a tanto ele chegar.
Mas agora regressemos do armário dos livros para a sala do Palladium.
Corre 1965. As «Bodas de Prata» são assinaladas condignamente. Numa das
fotos, o então presidente da FPX, Rodolfo Lavrador, discursa. A Federação
oferece ao Grupo um volume sobre peças de xadrez artísticas. No mesmo dia,
ainda novo e magro, Joaquim Durão, o pluri-campeão nacional, à frente do
Grupo de Xadrez Alekhine, de Lisboa, recebe a taça correspondente à
vitória no torneio internacional por equipas, organizado para comemorar o
evento. Era um conjunto de Pontevedra, Galiza, que internacionalizava a
iniciativa. Na exposição, fotos documentam o jogo e o brinde.
Duas constantes do Grupo, aliás. Jogar, jogar intensamente e brindar,
brindar pontualmente. Muitas imagens ilustram a tradição que se prolongou
por todos os anos dos tempos áureos da vida do Grupo e que consistia na
realização do banquete de aniversário. Com mais pompa, ou mais
circunstância, lá iam todos, num dia de Maio, rumo a um restaurante,
passando antes por um penhasco sobre o Douro, como acontece numa das
imagens expostas, colhida de cima e guardando um bom número de sócios a
olhar a objectiva, ou a paisagem assente sobre o rio que, ao fundo,
carrega serenamente o seu imutável paradoxo de Heraclito, levando sempre
para o mesmo destino as mesmas irrepetíveis águas que o compõem. Assim
flúi o tempo, repentinamente rasgado por um clarão de écran a preto e
branco que traz, de súbito, para outra dimensão a quadrícula restrita dos
tabuleiros. Os olhos habituam-se à nova luz, pregados ao noticiário da
noite. João Cordovil fala durante deliciosos minutos sem fim. Um velho
tabuleiro de latão e íman ao canto do Telejornal atrai pequenas multidões
de jovens às salas de jogo. Está quente a guerra fria, nesse ano de 1972
em que a América fabricou não um novo míssil, mas um novo mito, na figura
de um herói genial e excêntrico que à maneira de Hollywood, jurara
arrebatar à indústria soviética de campeões de xadrez o ceptro mundial.
Robert Fisher é a nova fábula. O «modelo» que passeia o xadrez, pela
primeira vez, nas passereles da actualidade do mundo ocidental. Irascível,
demoníaco, arrogante e ingénuo, com uma melena de cabelo caída sobre a
testa e a marca do génio incontido gravada a ferro em brasa no fogo do
olhar que gelou Moscovo.
Na catedral do xadrez mundial, que é o Clube Central moscovita, onde todos
os campeões do mundo têm uma sala galeria com os seus retratos oficiais,
como se de um estranha dinastia de monarcas sem reino se tratasse, lá está
o dele, Fisher, ladeado pelos homens estupefactos que começaram por não
acreditar no que viam, para em seguida não acreditarem no que lhes
acontecia. O pianista e grande mestre Taimanov perde por 6-0 com Fisher,
nos quartos de final do campeonato do mundo. O regime tira-lhe o piano de
concerto, que apenas devolverá anos depois, quando ele se casar com a
filha de um destacado membro da nomenklatura do xadrez soviético. Larsen
conhece destino semelhante. Mas é fraco consolo para uma Moscovo que, veio
a saber-se já depois da Perestroika, encarregou o KGB de seguir o mais
jovem grande mestre de sempre, com a impossível missão de decifrar a chave
da sua genialidade. Petrosian é a vítima seguinte. Nem o seu jogo
granítico e profundo travava o aspirante, que olhava Spassky, talvez o
mais universal xadrezista da sua geração, com um sorriso de desdém: «É um
adversário fácil!», proclamava Bobby.
E com tudo isso e com o seu xadrez inapreensível, baseado em ataques
mortíferos que culminavam um entendimento do jogo que parecia chegar-lhe
do fundo dos tempos, carregado da sabedoria de cada um e de todos os que
antes de si tinham jogado, Fisher cativava um mundo seduzido pela
propaganda. «No Grupo estava tudo a favor dele», recordam jogadores desse
tempo. «Não por política, mas pelo xadrez». De outro modo: — pela aventura
que Fisher personificava e que todos os xadrezistas do mundo perseguem
quando se sentam a um tabuleiro e lançam na batalha o mais irrisório dos
seus pequenos peões, ao encontro de um vento de guerra, ou de um desafio
interminável. Todos por Fisher, então. E Fisher não desapontou nenhum.
Abriu o match com uma falta de comparência e ainda assim condenou Spasssky
que, pelo seu lado, se deixou condenar, quase de bom grado, contemplando
cortesmente a vitória alheia com a genuína e educada admiração que só os
homens bons podem nutrir pelo seu adversário.
Depois Bobby Fisher condenou-se a si próprio, enterrou-se em vida,
resolveu morrer e assim fez. Para só renascer vinte anos mais tarde, com
barbas grisalhas para um match caricatural contra um Spassky de cabelo
quase completamente branco e um sorriso ainda mais brando que o de
outrora. Um Spassky que perderia cordatamente uma vez mais, num desafio a
dinheiro, sem emoção nem importância, um remake de quem parece esquecer
que à segunda a história pode repetir-se, sim, mas como farsa.
Dois anos depois é Abril em Portugal. As fotos da época são eloquentes. Os
cabelos caem sobre os ombros e os jogadores trocaram a gravata pelas
barbas em desalinho. Há camisas de flanela, camisolas justas com a gola em
bico e calças à boca de sino. Riem-se e cochicham à beira dos tabuleiros.
Estas imagens têm barulho, ao contrário das suas antecessoras, onde para
além do código morse dos cálices de brandy e das chávenas de café a serem
pousadas nos respectivos pires, ao lado dos tabuleiros, aqueles
cavalheiros distintos e antigos pareciam respirar a solenidade dos grandes
silêncios.
Pelas janelas do café Palladium chega o alvoroço das ruas de 74 e 75. Nos
cafés joga-se às revoluções, não ao xadrez. Nos próprios clubes é assim. A
secção do Futebol Clube do Porto tem hasteada uma bandeira da UDP. E o
pugilato que ocasionalmente une alguns contendores mais exaltados tem
menos a ver com a teoria das aberturas, do que com a técnica da
insurreição. Excepto no Grupo. Aí não. O Grupo era uma instituição
veneranda, fundada por cavalheiros de ar british que nunca tinham querido
problemas com Salazar. Nem os queriam com Vasco Gonçalves. «Jogar xadrez
foi sempre a única coisa que nos interessou», resumirá o mestre Álvaro
Machado. E era. Arlindo Vieira, com metade da idade de Álvaro Machado
conhece o Grupo nas vésperas da sua saída do Palladium, quando o histórico
café fechou as suas portas. Vinte e seis anos depois, ele recorda como,
ali, em pleno turbilhão político, quem entrava na sala do Grupo continuava
a deparar com o mesmo silêncio absorto, o mesmo cheiro de sempre ao mogno
das mesas (uma das quais foi restaurada para esta exposição) e era olhado
da mesma maneira distraída e ausente pelos presentes que, sentados a
jogar, pareciam seres de outra dimensão, que viam a sua sublime função
perturbada por um estranho visitante ocasional.
O encerramento do Palladium obriga o GXP a esfregar os olhos e acordar,
por breves momentos, no meio das ruas agora tão diferentes. O primeiro
impulso dos directores é procurarem outro café. Mas, nos cafés, toda a
gente parecia ter-se esquecido dos tabuleiros e do xadrez outrora rituais.
Há sinais de fragmentação entre sócios. A custo é arrendada uma pequena
sala no nº 183 da Rua Passos Manuel. É ainda a zona da Baixa. Mas é também
a demonstração de que os tempos mudaram. O xadrez saía para a rua. A
Direcção Geral dos Desportos espalhava milhares de tabuleiros pelo país. E
os xadrezistas não tinham mãos a medir. Toda a gente dava simultâneas a
toda a gente. Até Ramalho Eanes, o presidente em pessoa, aparece numa foto
da época a dar uma simultânea.
O émulo soviético de Fisher, um Karpov muito magro e jovem, emblema da
superioridade cultural e desportiva do socialismo, por oposição à
decrepitude capitalista, defrontava o «renegado» Korchnoi, o homem que
ousara fugir e fazia campanha anti-Kremlin a partir das casas do tabuleiro
de xadrez. Estamos no tempo dos parapsicólogos e dos hipnotizadores da
KGB. Os jornais enchem-se de páginas dedicadas ao jogo da política, por
interposta modalidade: o xadrez. Os que haviam escapado em 1972 tinham
agora uma segunda oportunidade. Grande parte dos mestres portugueses não
disfarçou a sua simpatia por Karpov. Mas, no Grupo, agora assoberbado por
uma incómoda readaptação, os relógios prosseguiam sem quebras o seu sonoro
e redondo matraquear: — continuava a jogar-se xadrez.
Mas, mesmo especificamente nisso, no xadrez, as coisas começavam a mudar.
Os jovens arribavam com um impulso, uma vontade e uma capacidade
diferentes. Chegavam também as primeiras, ainda que raras, mulheres.
Isabel Pereira dos Santos contrairia como uma doença incurável que se lhe
tivesse colado à pele, o título de campeã nacional. Conquistou-o pela
última de 11 vezes, em 1992, desta feita em representação do Grupo.
Sucedeu-lhe Tânia Saraiva, campeã nacional em 1994 e presença habitual na
selecção Olímpica feminina de Portugal. Ficavam longe as palavras de 1955,
proferidas pelo à data sócio número um do Grupo, Weber Salgado, que em
entrevista ao Boletim interno, não acha do xadrez feminino, nada mais do
que um lacónico e pouco convicto: «seria útil e interessante».
Enquanto epifenómeno de massas, tão bruscamente como aparecera, o xadrez
desapareceu em Portugal, para reocupar a sua velha posição residual, de
uma minoria igualmente ignorada, apesar de menos minoritária. Vários
clubes mantêm na cidade a chama semi extinta dos tempos loucos de 74, 75 e
76. O Grupo definha organicamente. Por trás de uma porta anónima, que abre
passagem para um corredor estreito e mal iluminado, a que se segue uma
escada que range sob o peso dos passos e o passar dos anos, a nova sede
ilustra o esplendor perdido. Mas, inexplicavelmente, a referência
mantém-se. A custo, praticamente sem auxílios, uma equipa do GXP volta a
estar perto do título de campeã nacional, já em 1997. Mas a hegemonia do
Boavista impede a repetição da proeza de há 50 anos atrás. Um meio século
que passa, então, quase despercebido, de permeio com os dois títulos de
campeão nacional de xadrez postal por essa altura vencidos por José
Gonçalves, em representação do Grupo.
Últimas imagens. Quadros a cores mostrando, então, essa porta anónima
algures no coração da cidade. Por trás de quanto revela e esconde qualquer
porta, flúem gerações. E passado e futuro misturam-se como na foto
seguinte: em primeiro plano, os cabelos completamente brancos de Aristides
Cunha, um fundador, jogando com Brandão Pinho e nota-se que entre ambos o
tempo cavou qualquer coisa não muito distante do meio século. Mais ao
fundo, na imagem, dois jovens ensinam os primeiros movimentos das peças a
um grupo de miúdos pequenos. Entre estes e o senhor Cunha, o Grupo de
Xadrez do Porto estabelece uma ponte de uns 70 anos de tempo. Entre estes
e todos os que ali não estão, mas poderiam estar, O Grupo de Xadrez do
Porto ligou através dessa mística alquimia que faz com que, dos cerca de
meio milhar de xadrezistas federados da cidade, quase metade sejam seus
sócios, ainda que jogando pelos respectivos clubes.
Mesmo nesta época um pouco sombria, pela tarde, os cavaleiros do passado
costumam juntar-se para jogar. Não muitas palavras, uma mágica tertúlia de
silêncios interrompidos apenas pela vertigem das rápidas que os mais
novos, regularmente, ali vão “bater”. E, nessas tardes que passam, quem
estiver atento pode sentir um sopro antigo que murmura na sala exígua e
quase lúgubre; um contraditório rumor semelhante ao eco de uma velha
garrafa atirada ao mar, cujo interior guarda a indecifrável mensagem que,
sem nunca ninguém ter lido, cada uma das gerações que por ali se recordam,
mais todas aquelas que por lá ainda se esperam, parecem antecipadamente
conhecer de cor.
Ao sentir o peso da história desportiva do Grupo de Xadrez do Porto e
entendendo o seu lugar na galeria das instituições, da cultura, da
educação e da vida da cidade ou, mais simplesmente, lendo apenas os textos
contíguos de Álvaro Brandão e Mário Marques, actuais responsáveis pelo
testemunho que do tempo lhes chega, ou as muito belas palavras de Arlindo
Vieira, ele próprio um historiador, percebe-se por que razão, no Grupo,
tantos garantem que as mesas hão-de voltar a ser de mogno e terão
incrustados os magníficos tabuleiros com as suas peças de madeira pesada
que a vertigem vazia do nosso tempo lhe deve. Entende-se por que dizem,
todos eles, que no ar se respirará, de novo, o aroma aristocrático dos
grandes lugares. E, ao ouvi-los, torna-se claro, também, por que razão ao
Grupo de Xadrez do Porto não se aplicará o nunca o destino que Patrick
Suskind reservou ao protagonista de um seu conto sobre xadrez,
condenando-o à pelota, «um jogo de menos exigência moral». Este foi o
lugar que acolheu Alekhine. E, ao evocá-lo, quem é capaz de não acreditar
que, um dia, se ouvirão, de novo, uns passos pesados e solenes a subir ao
primeiro andar?
Rui Pereira |