 Porque será que sou o sócio n.º 73 do G.X.P.? Não sei... ou
talvez saiba! Sou sócio vai para anos, mas fascinado pelo G.X. Porto
desde jovem adolescente. Quinze anos, Café Palladium, sede das salas
de xadrez do F.C. Porto, e do G.X. Porto, já jogador do F.C. Porto,
resolvi a medo entrar pela 1.ª vez na sala do Grupo. O que eu senti
na altura, ainda hoje vivo na minha memória! Uma sala linda, um
silêncio pesado, umas personagens idosas debruçadas sobre umas
extraordinárias mesas de madeira com tabuleiros embutidos, a mexer
numas belas e esbeltas peças de xadrez castanhas amareladas e
pretas, de verniz baço pela "patine" do tempo! E o cheiro, sobretudo
o cheiro, a madeira mogno, a algo antigo, venerável, indefinível.
Aproximei-me e ali fiquei, estático, quase sem respirar, a olhar
aqueles cabelos, brancos, aquelas calvas luzidias, aquelas mãos que
moviam cavalos, bispos, torres em quadrados pretos e castanhos. Que
diferença do ambiente barulhento, da luz quase solar, dos tabuleiros
de fórmica da sala do F. C. Porto! Aquilo sim, aquilo era um Clube
de Xadrez, daqueles que eu imaginava tipo britânicos, ou americanos!
Começou aí a minha paixão pelo G.X.Porto! Porque ser sócio do
G.X.Porto é ...uma emoção sentida da memória, ou se quisermos um
sentimento de afecto com uma história, uma tradição!
Mas sou sócio do Grupo porque, mais tarde, já na sede actual,
aprendi a respeitar e ser respeitado, a crescer em inteligência
xadrezista, a ter uma admiração sincera por Pessoas, umas já
falecidas, outras felizmente ainda a continuar a minha educação no
xadrez. Como não recordar aqui o Sr. Belmiro, o Sr. Bernardino
Passos, o Jaime Gilbert, o Sr. Jacinto Alves (que me admoestava
ternamente quando me ganhava uma partida: "então, amizade, anda de
corpinho aberto?"), o Sr. Carvalho, o Sílvio Santos.
Gente fabulosa, esta, que algures, na eternidade, jogará uma eterna
partida universal - jogará Deus Xadrez? E o Sr. Faria que ainda joga
e, não vai para poucos anos, pôs numa partida comigo a minha teoria
de aberturas "num oito"? E o Sr. Machado, que ainda hoje, em
análise, me dá lições sobre lições em finais? E... e...
Sou sócio do Grupo do Xadrez do Porto, também por isto, pelo
respeito, pelo convívio, pelas pontes geracionais que se
estabelecem!
Mas sou sócio também, porque o G.X. Porto é uma espécie clube "Robin
dos Bosques" que, não roubando nada a ninguém, e sendo rico de
tradições, vive na pobreza das dificuldades, dos poucos sócios, do
equilíbrio precário, da sede exígua. E sou sócio, porque a minha
ternura pelo G.X. Porto é imensa, mas menor da que os membros das
direcções sucessivas, entre elas, a actual (bem hajam!), que têm
sabido manter o Grupo vivo, insuflando-lhe uma vida, uma dinâmica,
um quotidiano de xadrez, que tornam menos artificial o seu respirar!
Sou sócio do G.X. Porto, porque ser sócio do Grupo, é ser solidário
e agradecido! É uma atitude!
Sou sócio do G.X. Porto, porque o grande campeão do Mundo, Alekhine,
esteve aqui, e assinou um seu livro e, com Alekhine não se brinca!
Mas sou sócio do G. X. P. porque quem entra e sai diz boa tarde, ou
boa noite. Sou sócio do G. X. P. porque é bom encontrar aos sábados
os amigos, mostrar os últimos livros, as revistas, os CDs de Xadrez,
sentir o barulho das peças a bater nos "desgraçados" dos relógios,
pela maluquice das rápidas, de olhar partidas de ocasião entre
pessoas venerandas, e não dar opinião, porque "quem está de fora,
racha lenha"!
Sou sócio do G. X. Porto, porque ... SOU DO PORTO, carago! Porque
sou inteligente, para ser sócio do G. X. Porto, outra vez carago!
Porque AMO O XADREZ, e o G. X. Porto é o Xadrez consubstanciado em
amor ao Xadrez! Porque preciso do G. X. Porto como o último bastião
onde se respira Xadrez e o G. X. Porto precisa de mim, para renascer
e se modernizar!
Sou sócio do Grupo de Xadrez do Porto, porque... Mas a Ternura
explica-se? Sou sócio do G.X. Porto, porque ... o sou em legítima
defesa, e porque isso é bom, e só isso basta!!
Arlindo Vieira |