"...a 24 de Agosto de 41 a direcção do Grupo comunicava a todos os sócios numa caligrafia escrupulosa que «foram plenamente
coroadas de êxito as negociações entabuladas entre o G.X.P. e a F.P.X. [Federação Portuguesa de Xadrez] para a deslocação
ao Norte do Sr. Dr. Alexandre Alekhine, campião (com “i” e não com “e”) mundial de xadrez». O «maior astro do firmamento
escaquístico» chegaria no dia seguinte a Espinho, onde ficaria por uma semana, dando três sessões: 2 simultâneas -
a primeira das quais, às cegas, estava marcada para a noite seguinte, uma segunda feira, 25 de Agosto, pelas 21 horas
e 30 – e uma lição temática.
Entardece. E não custa imaginar como pulsa o coração aos oitos jogadores seleccionados
pelo Grupo, ao encaminharem-se, de acordo com a convocatória da direcção, para a «Garagem Atlântida», à Praça da Batalha,
onde deveriam estar impreterivelmente pelas 20 e 15. Um deles regressaria nessa noite de Espinho com uma vitória,
Domingos Tavares. Enquanto o húngaro Dezso anulava com o campeão de olhos vendados. Assistia-se ao milagre por cinco
escudos de bilhete, enquanto os participantes «estavam isentos de qualquer taxa». Sabe-se que Alekhine voltou a jogar,
confirmando, já em condições normais, sobre 43 vítimas (só o húngaro Dezso de novo sobreviveu) a sua «técnica
brilhantíssima e incomparável virtuosidade», até chegar, no fim dessa semana mágica ao reduto portuense dos jovens
lobos, e ser recebido na bela sala «Renascença» do primeiro andar do café Palladium. Aí estão, expostas, as reproduções
dos documentos citados e das fotos, tanto da simultânea, quanto da sua notável presença entre os xadrezistas do Grupo que,
desse modo, abriam com chave de ouro o primeiro de 60 anos de história ora calma, ora acidentada. Se necessário fosse,
a vista de Alekhine teria um efeito catalisador sobre toda uma brilhante geração de xadrezistas. O ritmo competitivo
era assombroso. Três anos depois o Grupo de Xadrez do Porto vencia o campeonato nacional de xadrez postal. Outros
três e tornava-se campeão nacional por equipas. E, nesse mesmo ano, Leonel Pias, o rapazinho de óculos sentado ao canto
da fotografia com Alekhine, ganhava o título de campeão nacional..."
Rui Pereira
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