No final da década de cinquenta ou início dos anos sessenta, era possível observar um equídeo castanho, luxuosamente brilhante, montado por Cavaleiro vestido com fato nobre, onde nem faltava os apropriados mas luxuosos chapéu e arreios, a passearem pelas ruas centrais da cidade do Porto. O cavalo num passo bailado levantava geometricamente as patas fazendo a minha delícia da adolescência. Era vulgar vê-los em Sta Catarina ou na avenida dos Aliados, no meio do transito, então muito mais denso que hoje mercê do baixíssimo custo da gasolina .
Por interessante casualidade, nesse tempo faltaram quatro cavalos num jogo do Grupo!!!!!...Só levaram os cavalos, todas as restantes peças estavam na respectiva caixa! Não acredito que os roubaram por fazerem falta em qualquer jogo domestico ... Algum motivo, verdadeiramente inimaginável, produzia uma profunda sombra, encobrindo a razão para tal facto….
Porque será que sou o sócio n.º 73 do G.X.P.? Não sei... ou talvez saiba! Sou sócio vai para anos, mas fascinado pelo G.X. Porto desde jovem adolescente. Quinze anos, Café Palladium, sede das salas de xadrez do F.C. Porto, e do G.X. Porto, já jogador do F.C. Porto, resolvi a medo entrar pela 1.ª vez na sala do Grupo. O que eu senti na altura, ainda hoje vivo na minha memória! Uma sala linda, um silêncio pesado, umas personagens idosas debruçadas sobre umas extraordinárias mesas de madeira com tabuleiros embutidos, a mexer numas belas e esbeltas peças de xadrez castanhas amareladas e pretas, de verniz baço pela "patine" do tempo! E o cheiro, sobretudo o cheiro, a madeira mogno, a algo antigo, venerável, indefinível. Aproximei-me e ali fiquei, estático, quase sem respirar, a olhar aqueles cabelos, brancos, aquelas calvas luzidias, aquelas mãos que moviam cavalos, bispos, torres em quadrados pretos e castanhos. Que diferença do ambiente barulhento, da luz quase solar, dos tabuleiros de fórmica da sala do F. C. Porto! Aquilo sim, aquilo era um Clube de Xadrez, daqueles que eu imaginava tipo britânicos, ou americanos! Começou aí a minha paixão pelo G.X.Porto! Porque ser sócio do G.X.Porto é ...uma emoção sentida da memória, ou se quisermos um sentimento de afecto com uma história, uma tradição!...
Desde que me lembro, e já ando na competição há 31 anos, o Grupo foi o clube para onde todos os jogadores do CDUP iam logo que se licenciavam ou deixavam de estudar. Com o decorrer dos tempos e o aparecimento de muitos outros clubes, o mesmo se tem passado com muitos dos seus jogadores. Poderemos perguntar: porque é que isto acontece? A resposta é, no entanto, muito simples e óbvia. Acontece porque o Grupo sempre foi, e com certeza será, um grande anfitrião que a todos cativa e acaba por perfilhar. É esta a sua grande característica, de ser a casa de todos, que faz com que dele nos tornemos sócios e, mais tarde ou mais cedo, acabemos por o representar …
No âmbito das iniciativas que tomámos para uma celebração condigna dos 60 anos do Grupo de Xadrez do Porto inclui-se a edição deste folheto que não pretende ser uma História do Grupo de Xadrez do Porto (a qual, seguramente, é muito mais rica do que estas curtas páginas), mas apenas uma resenha, um apanhado, de alguns episódios da história do Grupo. Para a sua concretização foi decisiva toda a actividade de entrevistas, pesquisa e redacção do Rui Pereira, a quem pretendo expressar público e reconhecido agradecimento. Contudo, em determinado momento fui invadido pela sensação de que tal resenha estaria sempre incompleta se se “limitasse” a relatar os episódios do passado, por muito ricos que eles sejam. Com efeito, os leitores poderiam tomar conhecimento dos vários acontecimentos aqui relatados, sem dúvida interessantes (alguns até os poderão achar apaixonantes), mas teriam sempre dificuldade em conseguir compreender o verdadeiro espírito do GXP, aquilo que faz dele um clube único. E como definir, ou descrever, então, esse espírito?...
Têm uma magia própria as fotografias cor de sépia. Um mistério idêntico ao dos velhos livros, onde uma solenidade amarela, de cheiro fechado, se mistura com o passar do tempo. É possível recuperar o esplendor do mogno das velhas mesas, com os seus tabuleiros incrustados? Conseguirão ainda os grandes relógios de antigamente compassar as novas partidas? Este é um estranho mundo de moradas perdidas e velhos cafés assassinados, retratos de uma outra cidade, folhas de uma cultura soterrada pela selva urbana do nosso tempo, ao qual apenas chega, solitária e íntegra, a honrada memória do «Grupo». «Pai, que faz este senhor de pistola na sala do torneio, a ver os jogadores?». «-Aquele era o Che Guevara, filho! Nunca se separava da pistola. Adorava xadrez e já morreu, queres ver?...». E lá vão, os dois, pela mão um do outro, em voz baixa porque, ali ao lado, joga-se xadrez. Ou, de outra maneira, porque ali ao lado, na nobreza do velho salão, se perpetua a paixão em contra luz de gerações debruçadas sobre belos tabuleiros de madeira. Dez anos vezes seis vezes, 60 anos, pois, que é a idade em que os sonhos amadurecem e podem, então, voltar ao princípio …
Há quase duas décadas foi-me confiado um cargo de director no GRUPO DE XADREZ DO PORTO. Assumi-o então, penso, com o correcto sentido das responsabilidades envolvidas e um leal espírito de serviço. As sucessivas Direcções em que participei mostraram-me que estava no caminho certo para servir 2 causas: a do Xadrez em geral, e a do G. X. Porto em particular. No últimos anos “obrigado” a presidir à Direcção do Clube, tenho que reconhecer dele ter recebido, afinal, bem mais do que lhe dei — recebi a grande satisfação e honra de servir o mais emblemático e respeitado clube de xadrez em Portugal, dando em troca apenas a dedicação sem limites que ele merece. Fui, ao longo destes 20 anos, tocado por uma vida associativa que trazia já 40 longos anos “de estrada”, feitos de mil estórias que fizeram a sua história, que enraizaram na Cidade do Porto um nome que perdura e poucos desconhecerão …